CLIX





Como todas as coisas do universo estamos destinados, desde que nascemos, a divergir,

e o tempo é apenas a unidade de medida dessa separação...





CLVIII (alea iacta est)





 

Porque se não escolhermos
tudo permanece possível!




CLVII (beatitudinem)



A felicidade segura não existe.
A felicidade segura é segura, sim – mas não é felicidade.
A felicidade pacífica é pacífica, sim – mas não é felicidade.
A felicidade, quando é felicidade, assolapa, euforiza, arrebata. E não deixa respirar, e não deixa sequer pensar.
A felicidade, quando é felicidade, é só felicidade. E tudo o que existe, quando existe felicidade, é a felicidade. Só ela e tu. Ela em ti. Ela em todo o tu.
A felicidade, para ser felicidade, não tem estratos, não tem razão. Ou é ou não é.
A felicidade é animal, de facto – mas é ainda mais demencial. Deixa-te louco de felicidade, maluco de alegria, passado dos cornos.
 

Só quando estás dentro da felicidade é que estás fora de ti. Liberto do corpo, da matéria, da sensação – e imerso naquela indizível comunhão. 

Tu e a felicidade. 





in "Eu Sou Deus" de Pedro Chagas Freitas


Já a sentiste, não?

CLVI (80 ANOS DA MORTE DE FERNANDO PESSOA - 30/11/1935)




 "Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. "


Fernando Pessoa
 
 
 
 
 

CLV (dias)




é o grito dos que nascem
é o silêncio dos que partem
é o dia a dia que nos enfada
é tudo, pouco, ou talvez nada




CLIV (O evangelho de Tomé)


      Jesus disse a seus discípulos: "Comparai-me com alguém e dizei-me com quem me pareço.”
      Simão Pedro disse-lhe: "Tu és como um anjo justo.”
      Mateus disse-lhe: "Tu és como um sábio filósofo.”

      Tomé disse-lhe: "Mestre, a minha boca é inteiramente incapaz de dizer com quem  te pareces.”
     Jesus disse: "Não sou teu Mestre. Porque bebeste, ficaste intoxicado da fonte borbulhante que eu tenho distribuído por medida.”
E levou-o e retiraram-se e disse-lhe três coisas. Quando Tomé regressou para junto dos seus companheiros, estes perguntaram-lhe: "O que te disse Jesus?" 
       Tomé respondeu: "Se eu vos dissesse uma só das Sentenças que ele me disse, agarraríeis pedras e apedrejar-me-íeis,  e um fogo brotaria das pedras e queimar-vos-ia.”

 [Evangelho de Tomé]


No século II, o bispo de de Lyon, Santo Ireneu, escreveu 5 volumes com o título " Adversus Haereses" (Contra as heresias). Desde esse momento a fé gnóstica dos primeiros tempos foi eliminada da religião cristã, criando-se assim o cânone dos quatro profetas presentes na Bíblia; Mateus, Marcos, Lucas e João, sendo os restantes considerados heréticos. Parafraseando Irineu, tal como existem 4 regiões no universo e 4 ventos principais, também a Igreja só precisa de apenas 4 pilares.
O escritos de Mateus, Marcos, e Lucas são idênticos na sua retórica, no entanto é apenas na profecia de João que nos aparece Tomé (o tal da dúvida), sendo aqui retratado como alguém com falta de fé e por isso sem entendimento perfeito dos ensinamentos do Mestre.
Esta discrepância entre João e Tomé é visível logo no inicio da Bíblia, no Génesis onde se lê: " Faça-se Luz" . João acreditava que apenas Cristo era detentor dessa luz, já Tomé afirmava que a luz não só deu origem ao universo como continua a existir dentro de todas as coisas, especialmente na Humanidade à espera de ser encontrada.
Assim Jesus o disse: "Procura e encontrarás" [Mateus VII:7]

Eis, para mim, o principal conflito entre a fé ortodoxa de João e antiga tradição gnóstica de Tomé.

CLIII (Beatriz)



 
Beatrice Addressing Dante - William Blake

 
"Ó, pior que mortos, vós que fugis da amizade d´Ela!
Abri os olhos e observai que, antes que vós existísseis, Ela foi vossa amante, acomodando e ordenando a vossa formação."

[Dante - Convívio, III, XV]


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