CLIV (O evangelho de Tomé)


      Jesus disse a seus discípulos: "Comparai-me com alguém e dizei-me com quem me pareço.”
      Simão Pedro disse-lhe: "Tu és como um anjo justo.”
      Mateus disse-lhe: "Tu és como um sábio filósofo.”

      Tomé disse-lhe: "Mestre, a minha boca é inteiramente incapaz de dizer com quem  te pareces.”
     Jesus disse: "Não sou teu Mestre. Porque bebeste, ficaste intoxicado da fonte borbulhante que eu tenho distribuído por medida.”
E levou-o e retiraram-se e disse-lhe três coisas. Quando Tomé regressou para junto dos seus companheiros, estes perguntaram-lhe: "O que te disse Jesus?" 
       Tomé respondeu: "Se eu vos dissesse uma só das Sentenças que ele me disse, agarraríeis pedras e apedrejar-me-íeis,  e um fogo brotaria das pedras e queimar-vos-ia.”

 [Evangelho de Tomé]


No século II, o bispo de de Lyon, Santo Ireneu, escreveu 5 volumes com o título " Adversus Haereses" (Contra as heresias). Desde esse momento a fé gnóstica dos primeiros tempos foi eliminada da religião cristã, criando-se assim o cânone dos quatro profetas presentes na Bíblia; Mateus, Marcos, Lucas e João, sendo os restantes considerados heréticos. Parafraseando Irineu, tal como existem 4 regiões no universo e 4 ventos principais, também a Igreja só precisa de apenas 4 pilares.
O escritos de Mateus, Marcos, e Lucas são idênticos na sua retórica, no entanto é apenas na profecia de João que nos aparece Tomé (o tal da dúvida), sendo aqui retratado como alguém com falta de fé e por isso sem entendimento perfeito dos ensinamentos do Mestre.
Esta discrepância entre João e Tomé é visível logo no inicio da Bíblia, no Génesis onde se lê: " Faça-se Luz" . João acreditava que apenas Cristo era detentor dessa luz, já Tomé afirmava que a luz não só deu origem ao universo como continua a existir dentro de todas as coisas, especialmente na Humanidade à espera de ser encontrada.
Assim Jesus o disse: "Procura e encontrarás" [Mateus VII:7]

Eis, para mim, o principal conflito entre a fé ortodoxa de João e antiga tradição gnóstica de Tomé.

CLIII (Beatriz)



 
Beatrice Addressing Dante - William Blake

 
"Ó, pior que mortos, vós que fugis da amizade d´Ela!
Abri os olhos e observai que, antes que vós existísseis, Ela foi vossa amante, acomodando e ordenando a vossa formação."

[Dante - Convívio, III, XV]


Música


CLII (lux)



O dia começa com luz...

                                            ... e termina com luz.


                                                                                   Mas no meio há escuridão!


CLI (sem máscara)



faminta de luz,
às trevas lanço um gesto metálico
mas a sombra desventrada
dorme profundamente
ignora-me...

à força fecho os meus olhos
à força petrifico os meus pensamentos
líquidos.

desgovernado,
o filme roda em sessão contínua...
da plateia despovoada
assisto
sem máscara,
ao meu desfile mascarado...


CL




"O pensamento não é extenso nem temporal. 
A sensação desse pensamento é que existe no tempo e no espaço:"



Fernando Pessoa





CXLIX (a relatividade do tempo e do espaço)




Mais uma vez eis-me aqui a falar de tempo e espaço, conceitos tão simples e concretos e que a mim sempre me pareceram de uma complexidade gigantesca.

Já a teoria da relatividade assim o quis deixar transparecer, ou seja, o que temos por adquirido não é assim tão real como possa parecer. Ou por outras palavras, e para quem vê além do horizonte, esse tempo e esse espaço que vivemos são uma mera ilusão e a sua existência deve-se unicamente à própria existência. À minha, à tua e à dos outros… 

É difícil de perceber e mais ainda de explicar. Como se explica algo que não é visível, nem tangível? A única resposta exequível, neste nosso mundo, chega-nos através do (nosso) sentir…
Quantas vezes o ser humano já sentiu que num determinado momento (que corre de feição), o tempo passa a voar e noutro (em que o mundo parece que vai desabar), uma hora parece não ter fim?

Se o tempo se dobra perante o nosso sentir, por que razão é tão difícil imaginar e aceitar que o mesmo conceito acontece ao tempo e ao espaço perante a existência do cosmo?


CXLVIII (reflexões neste tempo a que chamam Páscoa)


 




No mundo fisico, o conhecimento adquirido nunca será a verdade absoluta sobre a vida e a morte.