CXXI (eu)


          sou o excesso de um eu
          sou noite fria de breu
          sou o acaso feito de gente
          sou o pecado inocente

                    não sou rubi flamejante
                    nem lua inconstante
                    nem a borboleta grácil
                    nem a busca do fácil

                              sou um pedaço do todo
                              que habita num globo
                              que com tudo se agita
                              que, em silêncio grita



CXX




Na realidade, a minha intuição, (que muito prezo desde o dia que aprendi a senti-la), também me desilude...


Será efeito do meu Ego?





CXIX


"Se quiseres dominar a natureza, tens de ser superior à natureza, resistindo aos seus impulsos. Quando o teu espírito estiver completamente livre de preconceitos, superstições e cepticismo, dominarás os espíritos. Não obedeças às forças fatais, para que as forças fatais te obedeçam a ti. Sê sábio como Salomão, para fazeres as obras de Salomão. Para te atreveres é necessário saberes. É necessário atreveres-te, para quereres. É necessário quereres, para estares com o Poder. E para reinar acima de tudo é necessário calar."



O mistério do Priorado de Sião - Jean-Michel Thibaux




CXVIII



- Acreditar não é o que antecede ao saber?
É de todo errado dizer que acreditamos em algo?

- Não, não é. Muito pelo contrário... só saberás alguma coisa se acreditares.
Portanto, não é de todo errado dizer que acreditamos em algo mas, é espiritualmente castrador quando apenas nos conformamos em acreditar.



CXVII (grito)



da caverna viva
do meu peito
irrompe um grito
animalesco
que se faz sentir
na distancia ilusória
dos espaços siderais





"Caminhava eu com dois amigos pela estrada, então o sol pôs-se; de repente, o céu tornou-se vermelho como o sangue. Parei, apoiei-me no muro, inexplicavelmente cansado. Línguas de fogo e sangue estendiam-se sobre o fiorde preto-azulado. Os meus amigos continuaram a andar, enquanto eu ficava para trás tremendo de medo e senti o grito enorme, infinito, da natureza."

Edvard Munch






CXVI





"A imaginação é mais importante que o conhecimento.
 O conhecimento é limitado.
 A imaginação envolve o mundo..."




Albert Einstein




CXV (encanto desencantado)


Aqui e agora sepultei um encanto desencantado
Que encantou o meu desencanto.
O pássaro sinistro, agoirento (será?).
Sempre lhe chamara desencanto encantado
E vinha diariamente rir no meu ombro.

Mas hoje o corvo demorou-se mais
As suas tétricas gargalhadas atroaram os céus...
Estilhaçaram-me o cérebro!

Gemi..

Ele bateu as asas pesadamente sobre mim

Caí...

O encanto tragou-o o abismo.

CXIV (equívoco)





Longe de mim

Serei finalmente livre!



CXIII (anseio)





queria ser semente casta
e fazer-me seara
na boca fértil do vento





CXII (Yakshi)





 A sensual ninfa é uma Yakshi expressão da força vital divina que surge em todos os seres vivos, manifestando-se especialmente no crescimento e no florescimento da vida vegetal. A mulher  Yakshi, em particular, é identificada como a árvore da vida. Na perspectiva indiana a árvore retira o seu sustento directamente das águas subterrâneas que absorve através das suas raízes e que transforma em seiva vital. A seiva sobe em direcção à luz impulsionada pelo tronco central da árvore e ao atingir o topo jorra como uma fonte sobre os seus muitos ramos


CXI

"Fito-te...
 







... e o teu silêncio é a minha cegueira!"


CX (des)encontro humano



Seria fada se voasse
Seria sol se queimasse
Seria lua se deslumbrasse
Seria rosa se exalasse
Seria rouxinol de cantasse
Seria deusa se criasse


Mas sou só... 
Humana!


Que voa
Que queima
Que deslumbra
Que exala
Que canta
Que cria




CIX





"Sob o ponto de vista Absoluto o Universo comparado com O TODO em si é de natureza de ilusão, de sonho, de fantasmagoria. Reconhecemo-lo sempre nas nossas vistas ordinárias, porque falamos de um mundo como um espectáculo transitório que vai e vem, nasce e morre, por causa do elemento de impermanência e mudança, limitação e insubstancialidade, ideia esta que está em relação com um Universo criado."



O Caibalion




CVIII (desejo de uma criança)


"eu desejo que a minha familia seja sempre feliz como hoje..." *


*Desejo de uma criança quando apagava as sete velas do seu bolo de aniversário.
Profundamente orgulhosa no Ser em que se está a tornar...



"A criança portuguesa é excessivamente viva, inteligente e imaginativa"
[Eça de Queiroz]



CVII (Salazar)



"O anfitrião convidou os dois recém-chegados a entrarem e conduziu-os à sala situada à direita do corredor... ... Salazar indicou aos visitantes que se instalassem no sofá, junto á lareira apagada; o ar estava tão gelado que tornava a sala desagradável. Encolhido no sofá, Kaloust* não resistiu a lançar um olhar inquisitivo à lareira adormecida.
  - O senhor presidente do Conselho não tem frio?
  - Não se pode gastar lenha, temos de ser poupadinhos - Setenciou o anfritião.
...
  - Sabe, sempre tive curiosidade de o conhecer. - confessou Salazar, cruzando a perna e encarando o magnata.
  - Bem vê que não é costume instalar-se em Portugal o homem mais rico do mundo, não é verdade?
Kaloust sorriu mas, no momento em que ia responder, hesitou. Os seus olhos haviam descido inadvertidamente para a perna cruzada do ditador e, como um íman que se cola ao magneto inconvenientemente, fixaram-se na bota dele. Tinha a sola rota."


[Um Milionário em Lisboa - José Rodrigues dos Santos]



* Calouste Sarkis Gulbenkian

CVI (Ilusão)





...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo.





[Fernando Pessoa]



CV (encantamento...)



bebi os poemas
de um só trago
Embriaguei-me!
do cálice ainda perfumado
uma última gota escorre...

a solidão?
essa mato-a a sangue frio
e reclino-me na divindade
ainda por inventar





"Onde podes encontrar o teu próprio eu? 
Sempre no mais profundo encantamento que experimentaste."




CIV (à toa...)



pudesse eu deslumbrar-me
nas raízes de um mar de luz
e adormecer, sem pressa,
nesse chão umbrático...
pudesse eu incendiar
as cinzas mortas
e, à toa, deambular
no olhar dos meus pensamentos...


CIII





A Vida é infinitamente maior quando é feita de ínfimos pormenores!



CII (Interpretação vs Percepção)



As superfícies podem ser observadas, mas a profundidade, essa, terá que ser sempre interpretada.


Esquema retirado dos meus apontamentos, que não são mais do que meros pensamentos


Viver incessantemente sobre o lado direito é como viver apenas com metade do nosso corpo, com uma só perna, um só braço, um só olho. É tudo empirismo, superfícies brilhantes e objectos nonocromáticos. Não existem interiores, nem profundidade, nem consciência...