Sophia não é somente uma
alma feminina, mas a alma de todas as coisas onde nós procuramos (ou deveríamos
procurar), a nossa totalidade
O Mito de Sophia
“No alto do inefável e
transcendental Reino da Luz, existia um par primordial chamado Profundidade e
Silêncio. Juntos, criaram um reino perfeito de equilíbrio e poder criativo,
consistindo em trinta formas arquetípicas de consciência chamadas aeons. A mais
jovem e aventureira delas, chamada Sophia (Sabedoria), apaixonou-se pelo
progenitor real, o grande Rei invisível do Todo, chamado Profundidade, e
desejou sondar sua natureza perenemente inescrutável. Confusa por seu amor,
lançou um olhar em várias direções de seu posto eterno na Plenitude, até que, à
distância, vislumbrou uma luz magnífica, tremeluzindo com sublime graça. No
espanto originado pelo seu amor, não podia mais distinguir entre o em cima e o
embaixo e, assim, supôs que a luz sedutora, que na verdade estava abaixo, não
era senão a real efulgência do grande Rei, seu Pai, que residia no mais alto
ponto dos céus. Desceu então ao vazio abissal, de onde, num mar de espelhos sem
limite e inescrutável, o reflexo da luz celestial lhe acenava. Cristo, seu
consorte celestial, foi incapaz de refreá-la e, assim, ela mergulhou na
profundeza das trevas, descobrindo depois que a luz refletida a iludira.
Entristecida, viu-se rodeada pelo vazio, destituída da qualidade e do poder da
Gnosis, à qual estava habituada na Plenitude. Desejosa de ter uma figura
conhecida perto dela, criou numa forma virginal um ser, cujo nome era Jesus,
concebido misteriosamente pelo seu desejo de Gnosis celestial. Contudo, uma
sombra de escuridão agarrou-se a Jesus, pelas influências maléficas do vácuo
sombrio onde nascera. Logo, porém, ele libertou-se dos liames perturbadores e
sombrios e subiu à Plenitude, deixando Sophia em desalento.
Fora do Universo celeste espiritual, sentindo-se só e desamparada, ela
vivenciou toda uma sorte de tormentos psíquicos inimagináveis. Paixão,
pesar, medo, desespero e ignorância exsudaram do ser de Sophia como
poderosas nuvens e condensaram-se nos quatro elementos: água, terra, fogo e
ar, assim como em seres que, mais tarde, ficaram conhecidos com o nome de
Demiurgo e arcontes (regentes) – todos eles espíritos ferozes e turbulentos.O
mais poderoso deles, um ser com face de leão, cheio de orgulho e desejo de
poder, comandou sua hoste de espíritos criadores do mundo e, a partir da
matéria-prima de terra, água, fogo e ar, eles construíram um mundo de aparência
externa impressionante, embora repleto de grandes falhas, um mundo à imagem
de seus criadores. Pesar, medo, ignorância e paixões dolorosas e
destrutivas, emaranharam-se nas malhas deste mundo imperfeito, visto que a
matéria-prima usada por esses espíritos criadores originou-se nos sentimentos
experimentados por Sophia. Olhando para baixo, para o mundo imperfeito e
conturbado, orgulhosamente modelado pela sua prole ignorante, encheu-se Sophia
de compaixão pela criação e resolveu assisti-la como pudesse. Ela tornou-se,
então, o Espírito do mundo, zelosamente observando-o, como faz uma mãe
quando vela por um filho fraco e malformado.
Enquanto isso, nas alturas, Jesus observava o triste destino de sua mãe Sophia.
Uniu-se então ao aeon-gêmeo de Sophia, Cristo, e assim tornou-se Jesus Cristo,
o Messias, o mensageiro de Deus. Ao redor Dele reuniram-se os sublimes e
compassivos poderes da Plenitude, e cada um ofertou-lhe presentes e glórias dos
seus respectivos tesouros. Assim, em Jesus Cristo, a Plenitude e seus poderes
reuniram-se, preparando-o para o grande acto de redenção, a libertação de
Sophia da sua lamentável condição no Vácuo. Através dos séculos e milênios da
história da terra, Sophia orou e lamentou-se sobre o seu destino e sobre o
destino do mundo imperfeito, e raios de luz entrelaçaram-se nas redes dos
regentes, os quais, como monstruosas aranhas continuavam a tecer teias de
matéria, emoção e pensamento, como armadilhas para os seres humanos, – em
essência, não criação deles, mas raios da própria natureza superior de Sophia,
infundidos em corpos de argila. Por fim, os poderes da Plenitude foram reunidos
e, tendo entrado em Jesus Cristo, desceram à terra para libertar Sophia e
trazer redenção a seus filhos espirituais, os membros da raça humana. Depois de
enfrentar as dificuldades impostas a Ele pelos regentes e seus lacaios humanos
iludidos, Jesus Cristo ascendeu triunfante da terra, levando Sophia. Subiram
jubilosos às mansões do Paraíso, atravessando os portais dos guardiões
espirituais para regiões mais altas e sutis da existência. Em cada portal,
Sophia entoava canções de louvor e gratidão à Luz que a salvara do caos das
regiões inferiores. Quando Sophia, o Espírito do Mundo, chegou às margens que
separam os mundos inferiores ao do reino da Plenitude, olhou, mais uma vez,
para baixo, para o mundo imperfeito e atormentado, suspenso no vácuo e no caos
e encheu-se de compaixão.
Não poderia deixar para trás aquela estranha criação, entregue aos seus
recursos mais que inadequados, nem poderia abandonar seus filhos verdadeiros,
mulheres e homens que estavam mais intimamente ligados a ela do que quaisquer
outros seres fora da Plenitude.Assim, usou os seus poderes mágicos e dividiu sua
natureza em duas metades: uma, que subiu aos aeons na Plenitude para lá residir
e a outra, que permaneceu próxima à criação, para continuar a assisti-la em
compassiva sabedoria. Desse modo, criado pela compaixão, o segundo Self de
Sophia tornou-se conhecido como Achamoth, a errante ou a inferior, aquela
que ainda está em contato com a humanidade e as regiões deste mundo…
Foi deste modo que o Universo constelou-se em três regiões: A primeira é a região
sublunar ou mundo material, governado por um regente que os antigos
chamavam de Pan, e que outros chamam indevidamente de demônio [daimon]. É
aquele que reina sobre a terra, as plantas e as criaturas vivas. Qual paciente
pastor de ovelhas, vela para que todas as manifestações da vida de Sophia
possam, um dia, alcançar os mundos superiores, não importa quão longe
vagueiem.Desconhecendo a Realidade e desígnios dos poderosos aeons da Luz, o
regente deste mundo gira a roda de nascimento, morte e renascimento, com a
esperança de que, se ele e seu rebanho forem capazes de se materem dentro dos
movimentos [cíclicos] da vida biológica, não serão condenados na hora da
libertação. A segunda, o espaço imaterial [região astral], é o mundo
da alma e da mente, regido pelo Demiurgo, o arconte principal, de numerosos
nomes, como Yaldabaoth (Deus infantil) e Saclas (o cego). É no mundo dessa
divindade arrogante e sedenta de poder, que se originam os muitos conceitos e
preceitos [teológicos e ideológicos], que escravizam a mente e a vontade
humana.O deus cego tem grande interesse no que chama de lei: regras,
mandamentos e regulamentos de todo tipo são por ele criados, para restringir a
liberdade do ser, direito de nascença do espírito. Filosofias e ideologias são
também insufladas pelo Demiurgo na alma e mente humana, junto com a ganância, o
poder, o vício e outras obsessões, visando obliterar e obscurecer a pureza
espiritual dos homens e mulheres A terceira região, acima dos planetas e
logo abaixo dos portais da própria Plenitude onipotente, é o reino de
Sophia-Achamoth, onde a Mãe sábia, auxiliar celestial da humanidade, está
entronizada. Com Ela, vivem incontáveis hostes de anjos de luz e almas santas e
rectas, que antes ocuparam corpos humanos.
É o reino do Espírito onde os anjos gêmeos das personalidades humanas também
residem e a câmara nupcial está construída. Ali as almas humanas podem
encontrar-se e unir-se às contrapartes espirituais, os anjos gêmeos. Quando as
almas dos homens unem-se à Deusa em seus múltiplos aspectos, é com
Sophia-Achamoth, a sábia guardiã, que eles o fazem. As três regiões cósmicas
[anteriormente descritas], têm as suas partes correspondentes dentro da
natureza dos filhos dos homens. Dentro de cada ser humano, há a parte material
(hyle) derivada do domínio de Pan, que carrega os instintos e
necessidades da vida material, com sua vocação para a sobrevivência e a
continuidade física através da descendência. Há também aquela outra parte que
personifica a mente e a emoção, referida freqüentemente como alma (psyche).
Essa parte da natureza humana, é derivada dos domínios do Demiurgo e, portanto,
contém mais de uma característica perigosa. Embora seja a sede da consciência
ética e da razão calculada, é suscetível às influências dos regentes, com seus
arbitrários e obsessivos mandamentos, ideologias fanáticas, orgulho e
arrogância. A terceira parte é a região do espírito humano (pneuma) pertence à Plenitude, como dom de Sophia. Na maioria dos seres humanos, porém,
essa centelha espiritual arde lentamente, adormecida e inconsciente, aguardando
o sopro dos Mensageiros da Plenitude, para ser avivada para uma acção efectiva.
Esse espírito é o de Sophia e através – e além dela – é de essência idêntica à
dos próprios Rei e Rainha, Profundidade e Silêncio. Assim, na vida
personificada, vê-se alguns humanos que podem ser qualificados de hiléticos,
regulados por instintos, pelas necessidades e sensações, vivendo assim, principalmente,
no domínio de Pan. E outros são chamados de psíquicos, que geralmente veneram o
Demiurgo como Deus, sem consciência do reino espiritual acima dele. Orgulham-se
e alegram-se com a sua lei e doutrina, imaginando-se superiores aos outros homens,
em virtude de suas leis. Dessa forma, a história espiritual da humanidade é
basicamente, uma progressão da instintividade primitiva e do panteísmo de
adoração da natureza (onde Pan é teos, isto é, Deus) à religião dogmática e
ética, e desta, à verdadeira liberdade espiritual da Gnosis…
Para alcançar o reino da Luz, tornar-se um ser pneumático, o homem deve, antes,
renunciar ao seu servilismo aos aspectos físicos, como também, e freqüentemente
com grande dificuldade, renunciar à escravidão do Demiurgo e de seus sectários,
sob a forma de servidão ideológica. As idéias escravizam tanto quanto as
paixões e, ambas, são obstáculos para o reino do Espírito. Surge então a grande
renúncia (apolytrosis), quando os humanos quebram as algemas fixadas nos seus
corpos e mentes pelos regentes (arcontes). De acordo com o acima exposto, há
apenas um grande passo a ser dado: a união transformadora do humano inferior,
na câmara nupcial, com a presença protetora do anjo gêmeo. Dos cumes do mundo
material e experiências de êxtase da mente, homens e mulheres erguem os olhos e
fitam os montes perpétuos do reino da luz espiritual de Sophia-Achamoth. O anjo
gêmeo estende sua asa cintilante e transporta para as alturas a alma humana,
até a câmara nupcial, onde a união espiritual é selada nas bodas celestiais
[alquímicas]. Um por um, Sophia atrai seus filhos espirituais para si,
juntando-os às hostes dos eleitos. Esse é o dom de Sophia, extraído do tesouro
sem fim de luz e posto à disposição dos humanos pela sua compaixão e sabedoria.
Ela permaneceu fiel à verdadeira Luz, e insta seus filhos a fazer o mesmo. “
[Jung e Os Evangelhos Perdidos - Stephan A. Hoeller]
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Mircea
Eliade explica no seu livro O Sagrado e o Profano – A Essência das Religiões: "O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento
primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Mas contar uma
história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do
mito não são seres humanos: são deuses ou Heróis civilizadores. Por esta
razão suas gesta constituem mistérios: o homem não poderia conhecê-los
se não lhe fossem revelados."
O mito é, portanto, uma revelação